quarta-feira, 14 de março de 2012

Passos


Abriu os olhos ao ouvir sussurros. Não de pessoas, mas do vento antes da chuva. Um sopro molhado, como o esburrifar de um perfume sem cheiro. Saiu da cama como que por instinto, sem obrigações a serem cumpridas. Olhou suas roupas como se fossem de outro que não mais dela. Escolheu qualquer uma. Sentiu vontade de tomar café, mas percebeu que o único resquício dele estava nas xícaras que há muito se acumulavam na pia. Tomou um banho quente, daqueles que fazem a pressão baixar e a pele engruvinhar. Sentiu-se limpa, sem graça, sem nada. Decidiu faltar ao trabalho pelo quinto dia seguido. Começou a limpar a casa, não por querer, mas simplesmente para aliviar a culpa do ócio, mais uma. Sentiu cheiro de carne e não conseguiu lembrar da última vez que tinha engolido algo sólido.Desmaiou. Ao recobrar a consciência viu um flash de uma criança correndo, mas era do lado de fora, no vizinho, lá onde a grama é sempre mais verde, onde cheira a comida e café, onde se pode correr e. Chega, essa auto-piedade não combina com você. Saia de casa. Vá pra rua. Você não teve culpa nenhuma.Tentando acreditar naquilo que dizia para si mesma, deixou sua mão deslizar pela maçaneta da porta da frente, lembrando de como fazia isso todo dia, da confiança que isso lhe passava. Por um breve momento a luz a deixou desnorteada. Passou pelo vizinho, pela criança, arrastando seus pés como se tivesse esquecido de como era caminhar, colocar um pé e depois o outro, para ir, para chegar, para voltar. Os caminhos não faziam mais sentido, pois ela continuava no mesmo lugar, presa a noites sem dormir, a vontade de não mais pensar, de não mais ser, de poder se desculpar e seguir em frente. Resolveu voltar e deitar mais um pouco e, quem sabe, um pouco mais.